Banished Review

Um city-builder medieval, Banished foi feito para quem gosta de SimCity mas prefere uma taverna à uma casa noturna. Enquanto suas horas de sono na vida real são esfaqueadas, o jogador vê sua aldeia se transformar em uma cidade respeitável e vibrante.

Neste jogo você controla exilados sem história pré-definida, deixando por sua conta criar o passado do grupo. Banidos por serem criminosos? Por terem opiniões fortes sobre a não-existência de deus? Ou naufragaram numa tempestade? Com um pouco de role-play, podem surgir cidades moldadas por um passado que tem muito a contar.

No modo normal, o jogador começa com alguns exilados e recursos o bastante para levantar algumas casas e já começar o trabalho de expansão. Mas calma lá! Não basta construir loucamente o que você acha que vai dar certo. Se suas decisões agora forem ruins, muito provavelmente seu povoado será um grande cemitério. Para um novato Banished pode ser esmagador, pois não existe tolerância para logística ruim. É muito importante encurtar a distância entre moradia e trabalho, sempre criando um fluxo de recursos de mínimo esforço possível. Assim seu vilarejo consegue fazer mais em menos tempo, facilitando manter estoques de comida e lenha, que cuja falta será o motivo dos seus pesadelos.

A comida é sempre a prioridade, podendo vir de uma grande variedade de fontes. Pesca, agricultura e gado estão entre as principais formas de conseguir comida. Quanto mais variada a dieta do exilado, mais saudável ele fica e isso gera benefícios, tipo ele não morrer. A morte das pessoas é tão presente quanto o nascimento. Num vilarejo grande, a reciclagem de cidadãos acontece em grande escala.

Outra prioridade é lenha, porque no inverno as condições ficam absurdas. Seu estoque de lenha e comida deve estar saudável antes de encarar essa época do ano. Ao devastar florestas coletando lenha, o jogador percebe que desmatou tudo em sua volta e agora a madeira tá na pqp. Um game over por congelamento depois, aprendemos que muito da força de trabalho deve ser focada na sustentabilidade, levantando mais árvores do que cortamos. Num futuro próximo, o jogador vai ter um deja-vu dessa cena só que agora com pedras e minérios. Esses recursos são usados em construções e nas ferramentas, que melhoram o desempenho dos trabalhadores. Eventualmente eles farão muita falta, naquele momento em que nem o ferreiro tem martelo pra fazer mais ferramentas. É fundamental criar minas desses recursos para poder crescer e manter seus cidadãos equipados.

Dá pra perceber que Banished reflete os problemas de extrativismo que enfrentamos em nosso mundo. Apesar de conseguirmos a sustentabilidade em diversas áreas do jogo, as minas de pedra e minérios são permanentes e persistem mesmo depois de vazias, mostrando que o impacto da expansão pode ser irreversível.

Banished é uma aula de paciência e persistência. Se muitas construções estão em andamento, cada construtor vai reservar os recursos necessários, deixando você com pouca matéria-prima em estoque. Por consequência, vai faltar madeira para lenha e em minutos todo mundo está congelando até a morte. Se muitas casas são construídas, haverá um boom na população de crianças, inúteis para gerar comida. Em minutos sua comida zera e todos definham. O timing das expansões tem que ser bem pensado, de forma que sua cidade esteja preparada para crescer. Respeitando o ritmo e se mantendo atento na logística, o jogador começa a ficar mais confortável e consegue uma folga para produzir mercadorias diferenciadas e entreterimento para seu povo.

Tabernas serão erguidas, proporcionando diversão e garrafas de álcool. Mercados surgirão para facilitar o acesso a suprimentos. Templos vão espalhar a fé e melhorar a vida dos irmãos. Escolas ensinarão os cidadãos a serem mais eficientes. Um porto irá abrir portas para o comércio. Além de disponibilizar produtos que podem estar em falta na sua cidade, o comércio é o único jeito de obter novas sementes e animais. Essas são mercadorias caras e sua cidade deverá já estar produzindo bem para poder comprá-las. Através dos comerciantes, compramos ovelhas, que nos dão carne e lã. Galinhas, que dão carne e ovos. Sementes de maçã, abóbora, cevada e muitas outras. Seu arsenal de produtos vai crescendo e a variedade na alimentação da galera fica melhor do que a sua na vida real.

Contudo, depois que sua cidade está prosperando, produzindo comida de sobra e mercadorias valiosas, as opções para melhorias são poucas. As casas podem ser feitas de pedra ao invés de madeira e as estradas podem ser reforçadas para uma locomoção mais rápida. Não existem muitas construções end-game, deixando o player sem ter o que fazer além de expandir e multiplicar. Os desastres são muito raros e na minha experiência eles não chegaram a provocar um game-over.

Banished ajuda bastante na imersão do jogador. A trilha sonora é de alta qualidade. São melodias calmas que as vezes puxam para o campestre, mas sempre tem um quê épico. Ela passa vibrações de calma e contemplação, tendendo a criar transes. Quando a cidade chega num tamanho considerável, a orquestra de sons começa e você sabe por qual parte da cidade está só de ouvir seu som ambiente. O movimento é grande e todos parecem saber bem suas tarefas.

Numa visão micro, vemos os cidadãos andando pra lá e pra cá levando carroças e recursos. O centro da cidade ficará agitado e os mercados fervilhantes. Pessoas vão pausar seu trabalho para visitar o cemitério, tomar uma cachaça na taverna ou contemplar a paisagem. A inteligência artificial é bem OK, raramente algum maluco esquece de tudo e fica parado vendo a vida passar (mas acontece!). Claro que poderia ser melhor, com a existência de interações entre as pessoas por exemplo, ou atitudes diferentes de acordo com o humor do carinha. Mas o jogo é indie, e na verdade foi feito inteiramente por um maluco: Luke Hodorowicz, que no momento do lançamento havia dedicado mais de 5500 horas de sua vida ao projeto. Um ato heroico e recompensador, pois o jogo é admirável.

Banished é uma simulação admirável. A linha de produção requer recursos e todos seus cidadãos tem um papel importante em mantê-la funcionando. A escala do jogo não é grande o bastante para se comparar com SimCity, por exemplo, e isso abriu portas para uma mecânica mais focada em sobrevivência e micro-controle. Banished não tem um end-game muito recheado e o conteúdo não é muito volumoso, mas é muito bem executado e capaz de entreter por dezenas de horas.

Veredito final: 7,5

Refrescando o cenário de City Builders, Banished é um belo conto sobre o caminho árduo que um vilarejo medieval deve percorrer se tornar uma cidade citada pelos livros de história.

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